Utilização de sangue de cordão umbilical em crianças com paralisia cerebral

A Paralisia cerebral é uma das principais causas que conduzem à incapacidade cognitiva e motora em recém-nascidos. O termo paralisia cerebral é a descrição para um amplo grupo de doenças caracterizadas por disfunção motora e postural, distúrbios cognitivos e atrofia cerebral.

As causas podem ser: traumatismo craniano ocasionado por queda, acidente automobilístico ou abuso físico de crianças, falta de oxigenação cerebral relacionado ao trabalho de parto, infecções na infância que tenham ocasionado inflamação cerebral, falta de circulação sanguínea fetal durante o desenvolvimento cerebral, infecções maternas durante a gravidez que possam afetar o feto ou mutações genéticas.

Atualmente, em torno de 764 mil crianças e adultos nos Estados Unidos têm o diagnóstico de  paralisia cerebral, sendo  500 mil abaixo da idade de 18 anos. Cerca de 10 mil bebês nascidos dos mesmos pais irão desenvolver paralisia cerebral. Em torno de 1,2 mil a 1,5 mil crianças em idade pré-escolar serão diagnosticadas por ano.

Apesar de diversas abordagens terapêuticas, as alterações neurológicas são dificilmente reversíveis e ocasionam déficits funcionais ao longo de toda a vida. Um trabalho publicado em 2001 apontou que a utilização de células-tronco poderia surtir efeitos positivos no tratamento de paralisias cerebrais.

Dentre as fontes de células-tronco, o sangue do cordão umbilical e placentário (SCUP) possui diversos potenciais terapêuticos, inclusive para o tratamento de doenças metabólicas que envolvam disfunções neurológicas. Especificamente para tratamento de paralisias cerebrais, o SCUP tem seu potencial terapêutico ampliado devido a características antiinflamatória, antiapoptótica (proteção contra a morte celular) e neuroprotetora.

Em maio de 2013, um artigo publicado numa renomada revista científica (Stem Cells), indexada ao maior repositório de revistas do mundo (Pubmed) e que conta com seus artigos revisados por especialistas, demonstrou a real eficácia da utilização do sangue de cordão umbilical na reversão parcial dos distúrbios ocasionados pela paralisia cerebral. O estudo duplo-cego, comparativo e randomizado comparou a utlização de SCUP potencializado com eritropoetina, eritropoetina isolada e um grupo placebo (controle). O estudo avaliou 105 crianças com idade entre 10 meses e 10 anos de idade (média de 3 anos e meio), divididas em 3 grupos. De acordo com as normas internacionais de estudos do tipo duplo-cego, nenhum dos envolvidos com a criança teve acesso ao tipo de tratamento recebido pela paciente.

Como os pacientes não possuíam sua própria amostra de sangue de cordão umbilical armazenada, o que seria a opção ideal, segundo os autores, por não necessitar o uso de medicações imunossupressoras para evitar uma possível rejeição, foi utilizado SCUP alogênico.

Os resultados apontaram que a utilização de SCUP potencializado com eritropoetina foi significativamente mais eficaz do que a utilização de eritropoetina e placebo. O grupo avaliou o desempenho motor, cognitivo e mental. A figura 1 representa a diferença observada entre as crianças que receberam SCUP, eritropetina e placebo.

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Figura 1: Diferenças na evolução dos pacientes com paralisia cerebral após 1, 3 e 6 meses de tratamento com sangue de cordão umbilical e placentário (SCUP), eritropetina e placebo (controle). As barras coloridas representam cada tipo de tratamento. Figura adaptada de Min e colaboradores, Stem Cells 2013; 31:581-591 (www.stemcells.com)

Os autores concluíram que “os resultados obtidos sugerem benefícios significativos da utilização do sangue de cordão umbilical, o qual se demonstrou seguro em crianças com paralisia cerebral, ficando evidente a evolução das funções cognitiva e motora”.

Por Rodrigo Proto-Siqueira, adaptado de Min K, Stem Cells 2013.