Terrorismo ou direito de escolha?

Artigo Dra. KAROLYN SASSI OGLIARI* (26 de janeiro, 2013)

A consagração do armazenamento do sangue de cordão umbilical privado está representada pelo Banco Cord Use nos EUA, onde a equipe pioneira nesse tipo de transplante reúne-se oferecendo as três modalidades: a doação, o familiar e o privado. O grupo não desaconselha o armazenamento privado. A questão é: quem assumirá a responsabilidade se surgir um caso novo de leucemia ou de outra doença hematológica numa família sem histórico até então? Além disso, com o potencial de novos tratamentos na medicina regenerativa, será importante utilizar células do próprio indivíduo para eliminar os riscos da rejeição.

A maioria dos partos em que há coleta privada de sangue de cordão ocorre em maternidades não credenciadas para doação. Esse material seria descartado, eliminando-se a chance de poder ser útil a qualquer pessoa que seja. O SUS atende apenas a 30% dos pacientes que necessitam de transplantes. Dessa forma, as amostras em bancos privados complementam a demanda necessária da sociedade pela grande probabilidade de se achar doador compatível dentro da família. Ademais, a chance de sobreviver após um transplante quando há grau de parentesco entre doador e receptor pode dobrar. A coleta das células-tronco no nascimento proporciona menos complicações como a rejeição e as células possuem grande potencial regenerativo. Um estudo realizado pelo cientista Derrick Rossi, no Instituto de Células-Tronco de Harvard, demonstrou os mecanismos de envelhecimento das células-tronco da medula óssea. Rossi declarou em recente Congresso de Terapia Celular que “provavelmente, quanto mais jovem o doador, melhores os resultados com o transplante”.

Ao falarmos sobre doação de órgãos ou de sangue de cordão, sabemos que essa escolha deve ser voluntária. A opção por não doar é legítima, tal qual é a atuação dos bancos privados no Brasil, regulamentados pela Lei 10.205 e RDC no56/2010 da Anvisa. Não é ético induzir culpa nos pais que não optaram por doar, tampouco subestimar sua capacidade de julgamento.
Segundo Alan Trounson, um dos maiores especialistas do mundo em medicina regenerativa, dentro de cinco a 10 anos novas terapias estarão disponíveis com células-tronco. Só com o sangue de cordão, centenas de estudos estão em andamento para doenças com maior prevalência que as do sangue. Os dados se encontram no portal ClinicalTrials.gov. No que tange às células-tronco mesenquimais, é importante entender que estão sendo utilizadas apenas experimentalmente. Seria irracional considerá-las mais importantes do que as do sangue de cordão umbilical, que há mais de 20 anos vêm salvando milhares de vidas.

A comunidade científica não tem definida a supremacia de um tipo de célula-tronco sobre a outra. A tendência é de que se determine, com o tempo, qual tipo de célula melhor se aplica a cada doença. Em um momento de tantas portas abertas na ciência, quem somos nós para definir o que é melhor para cada família?

*Médica, doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP
Editoria de Opinião ZH